Eu estava ansioso para ver como as conexões funcionariam na prática. Não sabia muito bem se encaixariam direitinho, pois no ato da compra eu estava sem as medidas exatas e usei minha intuição e a experiência com as canaletas. Quando peguei as conexões e comecei a montar fiquei contente em ver que encaixavam perfeitamente. Montei um circuito para utilizarmos bolinhas, já que os carros não são capazes de fazer as curvas nos cotovelos. Eles acabam batendo ou capotando nas nelas.
A montagem consistiu mais numa experimentação e adequação dos materiais. Em alguns pontos é necessário colocar rampas nas conexões, senão as bolinhas ficam entaladas nos tubos. A grande vantagem é que agora é possível descolar as pistas e circuitos, antes tudo era em linha reta, agora podemos contar com desvios para direita e para esquerda, além de ligar duas pistas a uma só ou dividir uma em duas com as conexões em T e Y.
Ao terminar de montar Benjamin e Otávio interagiram colocando muitas bolinhas de uma só vez, porém eles não ficaram muito tempo na proposta. Começaram a jogar a bolinha em tudo: paredes, portas, ventilador. Com isso, tive que intervir e conversei com os dois. Benjamin parou e brincou de outras coisas. Otávio continuou, então eu o mantive comigo durante um tempo e fiz ele observar os amigos brincarem. João Pedro também brincou, arriscou algumas montagens com as conexões, mas logo deixou de lado. Aldo e Jonathan foram os que mais brincaram. Testaram todos os segmentos e conexões da montagem. Coloquei no início dela duas entradas, utilizando a conexão T e um cotovelo. Dessa forma, havia dois buracos para lançar as bolinhas. Depois estimulei João a fazer algumas montagens e ele disse "vou experimentar esse", "vou ver o que acontece" naquele. Otávio viu João montando e tentou fazer parecido, fez um início diferente para a montagem, tirando o cotovelo do início e colocando uma canaleta sobre a cerca. Catarina também interagiu, questionando como funcionaria a conexão Y, se ela funcionava e para onde a bolinha iria.
Bom, como tive que fazer várias mediações com o Otávio que estava jogando bolinha no ventilador, cuspindo e batendo, o registro ficou um tanto comprometido. Mesmo assim, seguem duas fotos de hoje.
>>>Vc percebe que quando vc traz mais conexões a brincadeira ressurge???? Na ultima on the road, quando conversamos, me lembro bem que vc achava que este projeto não iria render mais, estava no fim...
ResponderExcluiragora vejo satisfeita que vc e as crianças estão renovando o projeto... muita alegria ver a brincadeira andar no tempo e você, como mediador, também!
Ana,
ExcluirCom certeza trazer esse novos materiais renova o trabalho. Essas conexões retomaram um projeto que achei não estar mais vingando, trouxeram novas explorações e possibilidades de investigação, pesquisa e brincadeiras.
Acho que precisamos de mais. Tenho a sensação de que deveria ter comprado muito mais, porém nosso orçamento está um pouco enxuto.
nos trechos "eu estava ansioso..." e "a montagem consistiu..."vejo vc testando suas hipóteses e levantando mais e mais delas a todo momento... isso é incrível para um interlocutor que acompanha sua narrativa! vejo o que você pensa em ação, sua cabeça desdobrando pensamentos, confirmando-os ou não, revistando-os ou abandonando-os... gosto de ver você planejar suas mediações com suas hipóteses, na verdade, essa transparência que sua narrativa propõe ao interlocutor é um presente! por outro lado, gostaria de ver mais as crianças nesta posição: como são as hipóteses delas? VC acha que elas são tão potentes como você para elaborar pensamentos e desdobramentos destes enquanto brincam? Gostaria de ver você falar um pouco disso...Uma pergunta que não quer calar: quem monta as pistas? Você, eles ou ambos? Me parece que há em jogo bastante a ser feito durante a montagem; tanto quanto na execução das descidas no uso da pista propriamente dito. na adua opinião, podíamos explorar mais este momento? para mim, esta brincadeira mora nas testagens, na relação do fazer com a bola (qualquer proposta) e confirmá-la ou não. Estou certa? Uma pergunta: onde mora o prazer desta brincadeira? Você acha que as crianças permanecem e exploram este projeto tanto tempo porque?
ResponderExcluirMuitas questões... Vamos lá...
ExcluirDisse que estava ansioso, pois estava mesmo. Mal dormi na noite anterior a esse episódio. Queria testar as conexões, ver o que elas poderiam trazer de novo, que novas possibilidades teríamos. Eu intuía que elas nos permitiriam fazer curvas, dar sinuosidade às nossas montagens que anteriormente consistiam, em sua maioria, em retas e declives. Claro que ainda há muitos declives, pois trabalhamos com a força da gravidade e o impulso que os objetos ganham com ela. Estou pensando em como poderemos utilizar outras forças físicas para nossas montagens, como molas, elásticos e coisas desse tipo.
Nesse dia, especificamente, foi uma experimentação e um ajuste do uso dos materiais, principalmente para o professor que não tinha ideia se as conexões iriam funcionar ou não, se estavam na medida exata, se encaixavam. Vi que precisavam de rampas e outros objetos para que funcionassem.
"Como são as hipóteses das crianças?"
ExcluirElas observam muito. Acompanham o movimento dos carrinhos e bolinha o tempo todo, seja dela ou dos colegas. Elas encaixam, acrescentam, tiram canos, canaletas, conexões e muitas vezes dizem: "Vamos ver o que acontece", "Vamos experimentar", "Vamos testar", "Vamos ver se funciona". Claro que as crianças têm as hipóteses delas e colocam elas à prova testando, observando como funcionam. Se aquele cano ou conexão que ela adicionou ou montou vai funcionar, se o carro vai parar, capotar ou continuar, se a bolinha vai entupir, cair, seguir. E sim! As hipóteses e as coisas que elas criam são muito importantes e potentes, e isso é algo que aprendi a apreciar e a mediar. No começo eu já dizia que não funcionaria, explicava por que não estava funcionando ou intervia, mas hoje espero a criança solicitar minha ajuda. Eu observo, olho e a ajudo se preciso. Por vezes a criança vê que sua hipótese fracassou e solicita ajuda, outras vezes ela muda e testa algo diferente, já outras, a criança continua colocando bolas e carros mesmo que a intervenção que ela fez não funcione, e ainda em algumas, elas deixam assim e partem para outra coisa.
"Quem monta as pistas? Você, ele ou ambos?"
Bom, no começo eu montava e confesso que sentia um pouco de ciúmes das construções. Eu criava, construía e via aquilo ser destruído ou mudado e tive que trabalhar uma questão em mim que tinha a ver com desapego. Hoje ainda muitas das montagens sou eu que faço, que início, porém eu as concebo mais como pontos de partida onde é possível acontecer muitas construções e ideias diferentes a partir da interação e da intervenção das crianças. Chega uma hora que as ideias do professor se esgotam e hoje percebo que depois que você dá um ponto de partida é preciso apreciar e observar a relação que as crianças estabelecem com o que você propôs, pois é a partir disso que você vai intervir, mediar e propor outras interações. As crianças vão mudar, dobrar, desdobrar, transformar aquilo e partir disso surgiram muitas ideias que alimentarão sua proposta. Muito das ideias que tem surgido hoje vem: 1) das crianças, 2) pesquisa de referências pelo professor, 3) interlocução com pares e coordenação; 4) investigação de outros materiais.
"Onde mora o prazer desta brincadeira?"
Realmente eu não sei se sei responder esta pergunta. Pode ser que experimentar, testar, verificar as hipóteses dê prazer; mas não me sinto seguro em afirmar que mora aí o prazer. Eu fico lembrando nas expressões de surpresa e de deslumbramento quando o olhar da criança acompanha o movimento de um carro ou bolinha, de quando ela descobre algo novo ou diferente, ou ainda quando ela repete algo que já repetiu dezenas de vezes e se diverte com isso.
Me chama atenção o olhar que acompanha o movimento de cada objeto em curso e o quanto as crianças se divertem repetindo uma interação. Por mais que Aldo já saiba o que a bolinha vai rodopiar dentro da luminária, essa brincadeira não perde a graça e o encanto. Isso me inquieta.
Me vem a mente um relato de Freud sobre uma criança brincando e repetindo algo e o conceito de eterno retorno em Nietzsche, porém ainda sim não vejo uma resposta. Acho que darei uma de Deleuze e responderei que o que fica é o sorriso do gato de Alice.
sobre sua atuação com o Otavio. achei excelente. manta-lo com você e ir conversando com ele sobre o que esta acontecendo, sobre como as outras crianças conseguem conviver, FALAR, NOMEAR o jeito das outras crianças brincarem apresentando a ele alternativas positivas e diferentes às suas atuações mais agressivas é excelente estratégia. Gostaria de ver esta estratégia desdobrar e insistir. Como ele evolui ao vivenciar esta estratégia tantas vezes? no caso de mediação de comportamentos, como é o caso do Otavio, a sistemática, freqüência, manutenção paciente e insistente da estratégia é muito importante para observar a mudança. conversar com ele durante o período todo que ele se mantém ao seu lado, modulando o tom de voz, apontando os exemplos de seus colegas animadamente, ajudá-lo a se manter observando ao invés de agredindo... o que isso, feito a médio prazo, pode gerar? você se anima em criar um registro a parte do percurso do otavio? podemos propor também a mesma estratégia por todos os outros professores, combinar a sistemática no tempo, solicitar registro de todos durante uma semana a respeito e refletir juntos. pode ser um bom caminho para avançarmos na nossa própria aprendizagem sobre estas mediações mais complexas, tanto para para nós quanto para ele, Otavio.
ResponderExcluirAcho muito interessante a proposta. Penso que devemos nos encontrar e conversar mais a respeito.
Excluirquando você diz:
ResponderExcluir"A montagem consistiu mais numa experimentação e adequação dos materiais" parece estar insatisfeito com este resultado de alguma forma, é certo pensar isto? Digo isso porque fiquei pensando assim: em que consistiria este lindo projeto senão nesta própria frase, sendo este o fim em si mesmo??? E, se isto é verdade, porque não entonar esta frase com mais satisfação? (*rs) entende o que digo? Me parece que há uma frustração ao dizer, quando na verdade você atinge com este resultado, na minha opinião, o âmago do projeto...
ou...
não estou vendo algo que você deseja... o que é? o que você gostaria de ver a mais?
me ajude a conhecer sua expectativa melhor, me diga algo sobre isso...
Talvez você tenha razão: o âmago deste projeto é uma experimentação. Mas é que neste dia, como relatei há pouco, havia várias expectativas minhas de como seria a utilização dessas novas conexões, tinha a ver com medidas, encaixe, questões que pudessem impedir a experimentação, a invenção, as construções e montagens. Ficaria frustrado se os materiais não fossem adequados e acabassem encostados e esquecidos.
Excluirme chama a atenção aqui a quantidade de crianças que passaram pelo circuito desta vez. Você poderia fazer uma lista destas crianças e apenas nomear em uma pequena frase sua intenção "aparate". isso porque as testagens variam tanto, que dá uma vontade de mapear por onde andam as possibilidades das crianças... minha pergunta neste caso é: quem entra pra brincar, interagir aqui, faz o que?
ResponderExcluirOutra proposta que te faço, para olhar mais do ponto de vista das crianças sem cair no interpretacionismo (*rs), é fazer uma lista de verbos que estão em jogo durante a interação com o circuito. isso vai nos dar uma radiografia dos caminhos dos pensamentos e intenções deles... para irmos aprendendo com eles enquanto eles aprendem... e para conversarmos sobre, e para viajarmos nas viagens deles... e também para contar esta história de outro pronto de vista.
Acho que de certo modo este blog tem contemplado boa parte de seus apontamentos. A cada post tenho tentado descrever e contar um pouco do que cada criança brincou, criou, inventou, como ela interagiu com a proposta e se a desdobrou ou não.
Excluir